
Será que Andy Irons vai encontrar ondas melhores do
que em Teahupoo no paraíso?
Na última terça-feira à noite,
recebi uma notícia que veio cair como uma bomba na comunidade do
surf mundial. Andy Irons havia nos deixado, vítima
de dengue hemorrágica que teria contraído durante
a etapa do WT em Peniche,
Portugal. A trágica ocorrência deixou em estado de
consternação todos os praticantes e adeptos do esporte. O atleta
foi encontrado morto em um quarto de hotel em
Dallas, após ser impedido de fazer a conecção de
seu vôo de volta ao Havaí, devido ao seu grave
estado de saúde. Andy, ao chegar a Porto
Rico, já sofria com os sintomas característicos da doença
e, após ser examinado por um médico local, foi aconselhado a
procurar um hospital. No entanto, ele resolveu voltar ao
Havaí e na escala no Texas seu
embarque foi vetado pois já estava bastante debilitado. Seu pai
responsabiliza com razão a companhia aérea e a organização do
WT pelo ocorrido, pois não foi lhe foi dada a
assistência devida. É também merecedora de repúdio, a associação
prematura da sua morte à uma overdose de drogas. A meu ver, o que
pode ter ocorrido na verdade, foi uma falta de conhecimento de como
tratar este tipo de doença. O uso de medicamentos inadequados pode
agravar o quadro clínico levando a pessoa enferma até mesmo ao
óbito. Segundo informações veículadas até o momento, cápsulas de
metadona foram encontradas no quarto que
Andy ocupava e se ele ingeriu alguma, isso pode
ter potencializado o mal que o afligia.
Acredito que o grande sentimento de
perda, deve-se também em parte ao fato de que os surfistas, em sua
maioria, consideravam Andy como um vilão. Esta
forma de julgar o comportamento do atleta, veio à tona
principalmente após seus embates históricos com o decacampeão
mundial Kelly Slater ( poucas horas antes de eu
escrever estas linhas, Kelly sagrou-se mais uma
vez campeão mundial por antecipação, ao vencer o brasileiro
Adriano de Souza na etapa de Porto
Rico durante as quartas de finais) que, devido às suas
atitudes sempre politicamente corretas, confrontadas com o
comportamento radical de Andy, vieram a criar esta
rotulagem injusta sobre ele, pois afinal ele era apenas um garoto
com uma vontade incontida de vencer. A verdade é que nós não
entendíamos Andy justamente por causa destas
comparações. O que posso dizer agora é que vejo nele um homem de
caráter, ainda que tempestivo, porém autêntico, e que surgiu no
cenário surfístico disposto a conquistar o seu lugar. Ele foi o
único que realmente encarou Kelly Slater e impôs o
ritmo para que o maior ídolo do esporte viesse a conquistar seu
decacampeonato mundial de surf. Kelly já estava
prestes a se aposentar, correndo apenas etapas como convidado,
quando viu aquele moleque do Kauai surgir
repentinamente no WCT e arrebatar três títulos mundiais
consecutivos (2002, 2003 e 2004). Creio que ele vislumbrou ali uma
ameaça à sua hegemonia no esporte. Sim, pois se ele não retornasse
efetivamente às competições, quem iria parar Andy?
Se Andy igualasse o número de títulos conseguidos
por Kelly até então, isso certamente iria ofuscar
o seu brilho de maior surfista de todos os tempos.
Andy era um surfista completo
tanto nos tubos como nas manobras aéreas.

Andy e
Kelly no ano de 2008 já haviam resolvido suas
diferenças.
O alto grau de competitividade de
Andy já teve início na grande rivalidade que tinha
com o irmão Bruce. Em matéria publicada na revista
Fluir do mês de Outubro, escrita por Lewis
Samuels, Bruce fala sobre este assunto,
creditando sua vitória no Quick Silver in Memory of Eddie
Aikau à uma briga que tiveram e que lhe rendeu um olho
roxo. Durante o campeonato, viu o irmão detonando as bombas que
quebravam, com grande possibilidade de ser o campeão. Foi o que
bastou para que ele redobrasse seus esforços e conseguisse a
brilhante vitória, com uma onda histórica que pegou do outside até
o shorebreak de Waimea, deixando todo o público
chocado.

A agressividade dos irmãos
Irons foi em grande parte influenciada pela
convivência com seus amigos do Wolfpack
(movimento de surfistas havaianos em defesa das ondas do
North Shore de Oahu liderado por
Kala Alexander). O Wolfpack veio
dar sequência ao que foi feito pelos famosos
Blacktrunks do Clube Hui, que
teve início ainda nos anos setenta. Após a invasão das ilhas por
surfistas de todo o mundo, liderados pelos barulhentos australianos
que, com uma nova abordagem nas ondas, intitularam-se os melhores
do mundo. A comunidade do surf local não deixou barato. Episódios
de agressão física e intimidações passaram a ser comuns desde
então. Não tiro a razão dos havaianos. Há muitos anos sua nação já
havia sido perdida, após a anexação das ilhas pelo governo
americano e um grande sentimento de revolta já ardia em seus
corações. Ao verem aqueles "haoles" impertinentes quererem também
roubar suas ondas, não pensaram duas vezes para entrar em
ação.
É isso aí. Andy
Irons não morreu. Um dia após a sua ausência, o número de
páginas na internet a seu respeito era absurdo. Provavelmente, como
já comentou Kelly Slater, o Pipe
Master poderá ser em sua memória, a exemplo do
Eddie. Sem contar que Andy já é
considerado por muitos como o melhor surfista havaiano de todos os
tempos. A morte é um episódio relegado apenas à vida de
simples mortais como nós e Andy Irons está
longe de ser apenas isto.
Hey Andy ! Catch one wave
for us in heaven !
Fiquem com Deus e boas ondas.
Marinho - presidente da
A.S.C.R.
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